GUARDIÃ DO TEMPO

08:01 Helena Lopes 0 Comments

PROLÓGO

Heitor podia sentir um suave aroma floral pelo interior do lugar, mas não conseguia saber exatamente qual era, e nem de quem.
Ele não sabia onde estava e o que fazia ali.
A claridade do lugar o fazia se confundir. Não sabia se aquilo real.
Começou a caminhar em passos lentos e largos, tentando se encontrar. Mas o caminho por onde caminhava só o levava para uma extremidade branca, um horizonte fosco e sem fim.
De repente, um pássaro começou a cantar suavemente, calmante... E ao piscar os olhos, Heitor se viu rodeado por ladrilhos de ouro, que agora direcionavam em uma incerta direção. O pássaro havia sumido e dado lugar a uma mulher que nunca vira antes.
- Está tudo bem – ela o acalmou.
Sua pele era da cor de leite, seus cabelos caíam em uma cascata ondulada castanha brilhante até depois de seu quadril, seu corpo era esguio sob um vestido branco quase transparente, que se arrastava no chão aos pés descalços e mostrava delicadamente seus mamilos rosados. Mas, eram seus olhos que o atraiam: Eles mudavam constantemente de cor. Como uma aquarela, mudando e dissipando-se em tons com um simples piscar. Mudando de azul para verde, verde para amarelo, amarelo e violeta, violeta para laranja... Em uma troca incansável que o fazia não querer desviar o olhar.
- Chegamos – anunciou a misteriosa mulher, fazendo Heitor desprender seu olhar dos olhos de cores vacilantes.
Ao redor uma sensação familiar o preenchia. Aquele era seu lar, de alguma uma estranha forma.
Pelas quatro dimensões da cidade, ele via templos incrustados à ouro, casas com tetos abobadados e dourados, macieiras em folhas brilhantes remanejando o valioso metal em contraste a cor vermelha intensa de seus frutos. Montanhas a horizonte ostentavam o dourado, a beleza do local intensificada.
Aquela era uma cidade de ouro.
- Não se impressione. Já estivemos aqui antes... – ela disse, apressando o passo descalço – Venha...
Heitor queria falar, mas não conseguia. Sua garganta queimava querendo ser liberta, mas ele simplesmente não conseguia.
A mulher o levava para um grandioso templo coberto de ouro, assim como tudo ali.
Algumas inscrições ilegíveis sobre a entrada chamou a atenção dele. Sabia que se tratava de uma língua antiga, não sabia dizer qual era.
- Templo do Tempo – ela decifrou para ele.
E em silêncio forçado, Heitor seguiu por vários minutos caminhados a mulher de olhos coloridos.
Cada passo que dava sentia o aroma floral mais forte. Será que era daquela mulher? Ou será que era o local? A claridade trazida pelo reflexo do sol sobre o metal valioso fazia Heitor se confundir ainda mais.
A mulher parou, anunciando sem palavras que haviam chegado à algum lugar.
E com um passo para trás, ela liberou o espaço, deixando aos olhos incomodados pela luminosidade de Heitor, a imagem do altar a sua frente.
No altar havia dezenas de homens e mulheres enfileirados.
O primeiro pensamento que lhe veio em mente foi de que todos estivessem mortos.
- Pergunte, Heitor – A mulher o olhou, agora seus olhos exibiam apenas uma cor.
- Eles estão mortos? – levou um susto a notar que sua voz grossa havia conseguido sair, num sussurro.
Ela lhe presenteou com um sorriso que nunca iria esquecer.
- Não. Eles apenas dormem.
- Quando acordarão? – sua voz manteve o sussurro involuntário.
- Eles não irão – disse a mulher, resoluta. Os pés descalços dela agora vinham na direção dele, parando perto o suficiente para ele sentir o calor de sua respiração. Ela estava perigosamente perto.
Seus lábios cheios pronunciaram algumas palavras desconhecidas para Heitor, como uma língua diferente, uma língua esquecida, como um encanto entorpecente.
- Acorde agora. E, desta vez, lembre-se de mim.
- Acordar? – indagou balbuciante, e um súbito flash de sono queria derrubá-lo sem pudor ao chão. Mas ele resistia.
- Não resista, meu amado. Acorde. – ela disse, antes dele esbarrar sobre o colo dela. Ela o segurou, sentando-se ao chão, até apoiá-lo sobre seu ventre e acariciar seu cabelo negro. Heitor sentiu a familiaridade se intensificar.
Antes de fechar os olhos em torpor, ouviu-a pronunciar algumas das palavras desconhecidas novamente, entoando uma cantiga hipnotizante... Não havia como resistir, não mais.
 E última coisa que viu antes de se entregar ao inevitável e súbito cansaço foi os olhos cor de mel, que o acalmaram, fazendo-o flutuar para distante daquela cidade dourada...
Levando-o para longe, levando-o de volta para a realidade.


LANÇAMENTO PREVISTO PARA 2017. 
PRÓLOGO SUJEITO À ALTERAÇÕES DURANTE EDIÇÃO E PUBLICAÇÃO DO ROMANCE.
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.








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