UM TOQUE DE ESPERANÇA - CAPÍTULOS 1 E 2

05:15 Helena Lopes 0 Comments





PRÓLOGO
Anoite estava fria. Definitivamente fria lá fora. Mas ali dentro daquele galpão manchado de sangue, o vento cortante do lado de fora havia sido substituído por gritos e pelas brechas feitas no corpo do desgraçado que agora estava na frente dele. Aquele já era o décimo segundo.
Miguel não podia deixar de contar, ele não queria deixar de contar.
Mais uma vez, de costas para o homem que não demoraria sucumbir à morte, ele preparou a pistola, engenhando calmamente o silenciador na ponta. Há pouco havia feito um toniquete rápido em seu braço, ter capturado aquele russo não havia sido fácil.
Uma vez que viu os olhos de Miguel, sabia que iria morrer, e sua morte não seria rápida. O homem que gemia de dor se chamava Martel e ele seria riscado da mente de Miguel ainda essa noite.
- Você está certo sobre isso? – se virou para o homem, não fazendo cerimônia para o que estava segurando na mão esquerda.
Martel olhou para a mão dele e soltou um riso bizarro, uma mistura de tosse sangrenta com um escárnio de pena. Os dentes dele estavam manchados de sangue. Miguel não sabia dizer se era por causa da carne da face, que ele não tinha mais, ou por causa dos danos que o choque havia causado nos órgãos internos.
A risada continuou, sinistra.
-Me mate logo e acabe com isso!
- É o que eu pretendo – Miguel disse, apontando a arma para o peito dele. – Você está certo sobre o que disse?
- Aquela puta está no norte da Europa, é tudo que sei. – a voz do homem saiu entrecortada. Ele estava sendo sincero, e Miguel não precisava mais do que isso. – Atire! – tentou gritar, mas não foi capaz, não tinha mais músculos faciais para tal.
- Eu deveria deixá-lo viver.
- Mas não vai...
- A culpa que carregou durante estes sete anos é bem pior do que eu fiz com você esta noite, não é mesmo?
- Atire... – o homem já não tinha mais forças para falar. A morte dele estava próxima, até Miguel podia sentir.
- Não precisarei. – Miguel deu um passo para trás, com os olhos fixados no homem que não demorou muito até abrir a boca novamente, tentando implorar para que Miguel o matasse, mas seu coração parou antes mesmo de ele ser capaz.
Aquele foi o único qual o coração não foi trespassado por uma das balas de Miguel. Aquele havia sido o único que não havia participado do imperdoável.
Antes de Walker ir para seu estande e limpar tudo, ele deu uma nova olhada lá para fora. O vento ainda castigava o exterior, mas era possível ver estrelas.
Tirou o silenciador bem devagar da pistola, e mais uma vez, nos sete anos de caça, sussurrou seu mantra que encerrava a noite:
- Ela era só uma criança.

CAPÍTULO 1
                   A esperança é algo com penas que pousa na alma, canta canções sem palavras e nunca para, nem se acalma

Clarice estava atrasada e, pelos céus, ela sabia muito bem disso. Não que fosse acostumada a atrasar, mas o trânsito estava um inferno. Ela adentrou o enorme estacionamento subterrâneo da Walker Tecnology House e ainda demorou uns bons minutos para recolher toda a bagunça de papelada no banco do carro.
Ela era a arquiteta mais desorganizada existente. Talvez a única arquiteta desorganizada.  Mas isso era só um detalhe. Clarice era ótima no que fazia, e a prova disso havia sido seu súbito sucesso após sair da universidade. Há dois anos ela havia construído um escritório só seu e hoje era um dos melhores do país.
Costumeiramente ela não ia pessoalmente as empresas que seu escritório remodelaria, mas a conta era tão importante que não poderia deixar que nada saísse dos eixos. Fora aquele seu atraso deselegante.
Seus assistentes já estavam a esperando e não paravam de ligar.
Ela pegou sua pasta e correu os dedos nos cabelos dourados, dando passos apressados para o elevador do estacionamento. Apertou o botão e esperou, até parecia que quando se estava atrasada tudo demorava séculos e não segundos. A porta de aço abriu e ela deu um passo para dentro, alisando sua saia azul marinho que tinha uma fenda na coxa direita. Assim que a porta começou a fechar, um braço forte bloqueou a entrada, e a porta se abriu completamente de novo.
Clarice fechou os olhos e tentou não xingar mentalmente a pessoa que resolveu entrar tão subitamente. Já bastava estar atrasada!
Seu telefone voltou a zumbir, e ela se viu obrigada a abrir os olhos para ver o identificador de chamadas, apesar de já saber quem era.
- Tenha paciência, Rose. Estou chegando. – disse à sua assistente nervosa.
- O senhor Walker não chegou, então tem alguns minutos, mas se apresse, os executivos já estão ficando estressados.
Ela bufou.
- Às favas com esses executivos! Por isso que vivo recusando obras corporativas, tudo o que fazem é tirar minha paciência com cores sem graça e prazos apertados. –Rose sorriu do outro lado.
- Venha logo. – Rose pediu mais uma vez, desligando a chamada.
Clarice guardou seu celular na bolsa e abaixou a cabeça, notando de soslaio o sapato Oxford do homem à seu lado. Era um sapato caro, ela tinha certeza. E pelo tamanho dos pés, o homem deveria ser enorme. Foi seguindo o olhar devagar pelas pernas longas e esguias, até subir pelo quadril e chegar ao peitoril do homem, vestido em um terno de três peças negras. Um arrepio subiu a pele dela quando chegou ao rosto.
Clarice engoliu em seco e fez esforço para ficar ereta.
Aquele era o dono da conta que ela supostamente deveria estar trabalhando. Aquele era Miguel Walker.
Ela já o havia visto em um ou dois eventos sociais, de longe, claro. Walker era um homem extremamente elegante, profissional, distante... E insanamente lindo. Era daqueles tipos de homem que exalava luxúria e mistério, um pacote muito desejado entre as mulheres.
Ela abaixou a cabeça e fechou os olhos rapidamente.
- Merda.
Ela havia acabado de mandar os executivos da empresa dele irem às favas. E isso não soava nada profissional para ela.
Juntando os resquícios de dignidade que tinha, voltou seu olhar para ele novamente.
- Eu sinto muito, senhor Walker. – disse ela, falando com ele diretamente pela primeira vez.
Clarice continuou encarando o rosto austero e firme que ele tinha, analisando cada linha de expressão. Walker tinha os cabelos negros como seu terno imponente, mas havia duas linhas brancas um pouco acima de cada orelha, dando a ele um ar de superioridade e atribuindo alguns anos a mais do que ela sabia que ele tinha.
Os olhos dele eram negros, passivos e profundos. Ela não era capaz de ver mais do que ele impunha. O rosto era anguloso e firme, um nariz acentuado, boca fina que exibia uma linha perfeita e atraente, era bem barbeado e tinha algo que Clarice nunca tinha percebido: uma cicatriz abaixo do queixo, quase imperceptível, que se despontava levemente e caminhava para trás do pescoço, desaparecendo por entre o cabelo espesso. Parecia ser longa, mas o terno dele e a posição em que ela estava o olhando não favoreceram a visão.
Ela esperou que ele continuasse calado, mas fez justamente o oposto. Ele abriu um sorriso pequeno e fixou bem seus olhos negros nela.
- Eles também me irritam, não se preocupe com isso.
A voz dele era grossa, daquele jeito que era capaz de fazer qualquer pessoa arrepiar. E o tom que ele usou parecia errado, como se não costumasse ser tão gentil assim.
O corpo dela cedeu ao alívio instantaneamente, e voltou a abaixar a cabeça, dessa vez fingindo ter algo na bolsa que precisava encontrar. Não queria mais ficar olhando para aquele homem, estava se sentindo mais do que intimidada. Ela estava começando a ficar excitada e isso não era bom quando se tratava do homem que iria pagar seu projeto.
Deu um pigarro baixinho e acabou se decidindo por fechar a bolsa e passar a mão novamente na saia. Ela estava nervosa.
- Não precisa ficar constrangida, eu costumo ouvir coisas piores.
- Eu não... – se virou para ele, num ímpeto. Abriu um sorriso e tentou disfarçar que não estava gostando do que estava sentindo ao lado dele naquele espaço confinado. – Eu só estou... Me desculpe, mas...
- Não precisa se desculpar novamente, está tudo bem. – ele falou firme dessa vez.
- Não. – ela apontou para o pescoço dele, começando a ficar assustada. – Você está sangrando. 
- Estou? – ele passou a mão grande no pescoço, calmo. Voltou sua mão para olhá-la e viu o sangue.
- Quer que eu ligue para uma ambulância ou algo assim? – O nervosismo dela havia virado temor. Ela não gostava de sangue, em nenhuma hipótese.
Miguel deu um passo à frente, tirando uma chave no bolso da calça e o colocando no painel, fazendo todos, exceto o botão principal, apagarem. 
- Se incomoda em subir comigo? – perguntou sem olhar para ela. E como se ela tivesse alguma alternativa além de subir com ele, respondeu que sim. A porta se abriu, e ele deu dois passos para fora, seguindo sem parar para a porta no meio do andar, que dava para uma estrutura de vidro embaçado. Aquele era o escritório pessoal dele.
Meio receosa do que fazer a seguir, ela o seguiu, hesitante. Era para ela estar alguns andares abaixo, com sua equipe, a espera justamente daquele homem. E não no último andar do prédio, o seguindo – sozinha – para o escritório pessoal dele.
Miguel percebeu que ela estava acanhada, por isso ficou segurando a porta do ambiente para ela antes de entrar.
- Me desculpe pelo inconveniente – ele falou, repousando sua pasta em uma bancada próxima ao bar enorme que tinha no final do escritório. Mas Clarice estava realmente focada na decoração e na claridade que todo aquele recinto continha. Era algo que realmente ela não via nessas corporações bilionárias. – Acho que vou precisar de sua ajuda. – Miguel completou, tirando o terno e o repousando junto com a pasta. E como se a visão dele perfeitamente vestido não fosse o bastante, Miguel Walker só de colete e camisa social era como uma visão perfeita de virilidade.
O colete só acentuava ainda mais o que ela estava tentando deixar de lado. Mas os músculos acentuados que ele tinha pareciam querer pular daquele pedaço caro de pano e, ela não mentiria, estava dando tudo para vê-lo sem camisa. Podia apostar que ele teria um corpo perfeito, todo cheio de músculos definidos e bem fortalecidos. Ela nem se lembrava da última vez que havia visto um homem tão gostoso daquele jeito.
Clarice não estava gostando daquilo.
- Claro – ela tentou desobstruir sua garganta presa. Miguel foi atrás da bancada e pegou uma maleta de primeiros socorros. – Tem certeza de que não quer que eu ligue para a ambulância?
Ele negou.
- Não é nada sério, confie em mim. Nem ao menos senti até você falar. Devo ter batido ao entrar no carro ou algo assim.
E começou a desabotoar o colete. Por Cristo!, ele não podia fazer isso com ela.
Clarice caminhou rápido até perto dele, e, dando um sorriso nervoso, pegou a maleta de primeiro socorros, ficando de costas para Miguel, que terminou de tirar o colete, colocando-o junto com as outras peças. De onde ela estava já conseguia ver o corte, era um pouco abaixo da orelha, e era pequeno, nada demais. Mas pelo tanto de sangue que estava escorrendo ela tinha quase certeza de que precisaria de pontos.
Ele puxou uma cadeira e se sentou. Ela agradeceu, porque minha nossa, o homem era enorme. Tinha uns belos dois metros de altura, e mesmo estando com um salto bem alto, Clarice estava uma cabeça abaixo dele.
- Eu não sou muito boa com sangue... – ela o avisou, antes mesmo de abrir a caixinha e de lá puxar uma gaze.
- Eu percebi. – disse ele, entoando aquela voz grossa. – Não pense no sangue, só visualize o corte.
- Não ajuda muito – assumiu, borrifando um pouco de álcool e anti-inflamatório na gaze. Ela foi devagar para que não ardesse ou algo similar, mas assim que começou a passar lentamente a gaze no corte para limpá-lo suavemente, não recebeu resposta nenhuma de Miguel. – Dói? – ela perguntou, mas a resposta era bem clara.
Era claro que um homem daquele jeito não iria reclamar por causa de um corte pequeno.
E ele não respondeu, o que a incitou a terminar logo com aquilo para ir fazer seu trabalho. Limpou o corte e como havia parado de sangrar significativamente, ela resolveu pegar um Band-Aid cor de pele e deslizou suavemente nele, tentando não roçar seus dedos ao calor da pele do pescoço dele. Quando terminou, colocou os papeizinhos da embalagem na caixa mesmo e a fechou, dando um passo para trás. Ela havia limpado o sangue, tirando os resquícios que demonstrariam qualquer vestígio de corte, e o curativo estava bem escondido.
- Este é o melhor que eu posso fazer – disse Clarice.
- Obrigado. – Miguel respondeu, se levantando a cadeira e nem fazendo questão de olhar para ela. E aquela indiferença súbita, não deveria, mas foi como um soco no estômago.
- Posso usar seu banheiro? – pediu, levantando as mãos para cima, mesmo sem que ele estivesse olhando.
- Claro. À direita.
Não precisou mais do que isso para ela seguir até lá rapidamente, seguindo com a cabeça bem reta ao objetivo de lavar as mãos, sair dali – correndo de preferência – e nunca mais ver aquele homem.
O coração dela parecia querer sair da boca só se senti-lo por perto.
Clarice fechou a porta e não reparou no lugar, percebeu que era enorme, mas nem queria memorizar porque senão iria ficar se lembrando.
Lavou as mãos e secou com uma das toalhas descartáveis com a logo da empresa. Ela jogou a toalha no lixo e saiu do banheiro, apressada. Quando chegou até sua bolsa, não longe dali, notou que ele não estava mais no escritório. Ela deu uma olhada bem generosa no ambiente e nenhum sinal dele. Será que havia partido e a deixado, sozinha?
Clarice não estava realmente acreditando nisso. Bufando baixinho e saindo rápida daquele lugar, apertou o botão elevador para baixo, escolhendo o andar que deveria ter estado há minutos.
O elevador desceu rápido dessa vez e ela não se demorou a adentrar na sala de reuniões. E quando entrou lá, levou um susto.
- Cadê os executivos? – Clarice quis saber, olhando para Rose.
Sua assistente parecia cansada, e realmente estava. Rose estava grávida de cinco meses e não via a hora de entrar de licença.
- Foram embora. – ela continuou colocando os papéis do projeto na pasta, os outros rapazes da equipe também estavam fazendo o mesmo.
- Como assim eles foram embora, Rose?
- Um dos executivos recebeu uma ligação do senhor Walker pedindo para cancelar o projeto.
- O quê?! – a voz de Clarice soou estridente e excessivamente alta.
O restante da equipe passou por Clarice murmurando gentilmente um “sinto muito”.
Rose se virou para ela e a entregou a pasta pesada, Clarice agarrou a maleta de couro e ficou esperando Rose terminar.
- Parece que o cara não gostou do projeto. Vai contratar outra empresa. Disseram que o cheque pelo trabalho que tivemos será enviado por um correspondente, e bem, foi só isso.
- Não estou acreditando!
- Pois é, eu também não. – Rose disse, pondo-se a sair em direção ao elevador. Mas Clarice estava embasbacada. Não acreditava que Walker, que havia sido gentil com ela há minutos atrás, havia cancelado o projeto antes mesmo de ele ser exibido. Como ele iria saber se gostaria ou não se a equipe de Clarice não tivera tempo de apresentá-lo?
E agora ela estava revisando cada minuto que passara com ele para tentar descobrir qualquer coisa que havia feito que pudesse ser considerada como incapaz de exercer sua função.
- O que está esperando, Clara? Vou precisar de carona, e como temos a manhã toda de folga vai me pagar um coquetel. Eu mereço por ter ficado te esperando.
Clarice expirou fundo e tentou acalmar os nervos. Depois de semanas trabalhando incansavelmente naquele projeto, ele havia sido recusado como se não fosse nada. Ela estava repentinamente cansada e puta da vida.
- Eu acho que vou precisar te pagar dois coquetéis. Preciso te contar algo. – caminhou até Rose, que estava com a mão delicada em cima da barriga.
- Sabe que adoro fofoca – deu um risinho.
- Então vai adorar essa.

**

Miguel estava sentado à sua mesa olhando para algo em sua mão que não deveria estar ali. Um lenço. O lenço de Clarice. Havia caído da bolsa dela, sabe-se lá como, assim que ela a havia deixado sobre o sofá. E não era só isso. Miguel também havia pegado a toalha que ela usara. Ele levou até próximo o nariz e a cheirou.
O aroma era doce, misturado ao costumeiro odor de ferrugem de seu sangue.
Não sabia o que tinha acontecido. Em questão de horas sua cabeça havia virado uma omelete bem batida de pensamentos estranhos e sentimentos que há tempos não sentia.
Clarice havia sido doce e discreta com ele, o auxiliou hesitante, mas carinhosamente, quando nem ao menos precisava. Miguel já perdera a conta de quanto tempo fazia que conseguia se limpar do sangue que costumava ter no corpo.
Ele estava assustado. Como uma mulher que nunca vira na vida fora capaz de despertar coisas tão herméticas dentro de si?
Miguel já a conhecia, de nome e aparência. Mas assim que a viu no elevador não sabia que era tão linda. Os cabelos loiros dela mais pareciam roubar o brilho do sol, sem contar os olhos dourados que ela possuía. Ela era perfeita. Uma mulher que Miguel não demoraria para seduzir e levar para seu quarto de hotel destinado a trepadas sem significado. Porém, ele não sentiu que deveria seduzi-la. Ele sabia que tinha que afastá-la de si, e foi o que fez. Foi algo imprudente e completamente refletivo ao que sentira quando ela o tocou ao fazer o curativo de seu pequeno corte.
Ela foi delicada, e, ele sabia que ela não queria tocar nele. Não sabia se era medo ou desejo, e mesmo assim não importava, pois as batidas aceleradas de seu coração o avisaram bem claramente que aquela não era uma mulher que deveria ficar por perto.
Assim que ela pediu para ir ao banheiro, ele parou um segundo apenas para observá-la uma última vez. Clarice saiu caminhando sensualmente, um passo a frente do outro, exibindo suas curvas voluptuosas e seu charme irresistível. Ele ainda conseguia sentir o rastro do cheiro que o cabelo dela deixou em seu escritório. As ondas loiras meneando enquanto ela caminhava rapidamente para sair daquele lugar.
Miguel era ciente da apreensão que causava nas pessoas. A verdade era que ele se via consciente de muitas coisas que usualmente não são comuns aos outros. Mas sobre o que estava sentindo na boca do estômago... bem, isso era incompreensivelmente assustador. Pois, para ele era novidade.
- Miguel! – Seu sócio e amigo irrompeu pela porta do escritório, indo até ele com passos largos. Ethan era um homem alto e forte, assim como Miguel, mas tinha bem menos cicatrizes. Tanto por fora quanto por dentro. – Mas porque diabos cancelou o projeto da Hope Architecture? – falou com aquele sotaque inglês forte.
Miguel não respondeu. Não sabia o que dizer. Largou o lenço e a toalha devagar sobre a mesa e apoiou os cotovelos no carvalho, juntando as mãos sobre o rosto.
- Puta merda! Os executivos estão pirando. Vai demorar uns bons meses para conseguirmos outra empresa que faça projetos bons e em pouco tempo.
- Eu tive. – foi a resposta que saiu da boca dele. E não precisou de mais nada para que Ethan entendesse que Miguel teve que cancelar.
- O que houve?
- Aquela mulher. Clarice, acredito.
- O que ela fez? Posso resolver isso agora.
- Não, Ethan. Ela foi gentil. – Miguel levantou da cadeira e se virou para o amigo, que sabia que tinha que mudar de assunto.
- Os uniformes já encontraram o corpo.
- Bom.
- Está acabando, Miguel. Faltam poucos agora.
A feição de Miguel se tornou uma expressão de dor misturada à dúvida.
- Não acredito que eles acabarão, não enquanto eu viver. Martel me deu a localização dela.
- E o que vai fazer?
- Ainda estou checando precedência. Após isso irei planejar o próximo passo.
Os dois sabiam que o próximo passo sempre era o pior a ser planejado.
- Irei com você.
- Não. – Miguel virou para ele. – Preciso de você aqui.
- Ok, mas comandar seu império fica bem complicado quando veta minhas escolhas.
- Contrate outra empresa, pague o dobro, não me importo. Como está o aplicativo novo?
- O lançamento está próximo. Vai aparecer, dessa vez?
- Talvez. – Miguel não costumava ir a eventos sociais. Ele ia, quando era de extrema importância, mas não gostava. Era como adentrar em um ambiente destinado a sorrisos e galanteios elegantes, propostas de jantares futuros e falsidade. Para ele era apenas mais uma noite sem vida.
- Mande a equipe de tecnologia se preparar. Descerei ao departamento daqui uma hora, quero verificar como anda o novo S.O.
- Sua secretária está do outro lado da porta, você sabe... – Ethan ironizou. – Você quer me dizer o que realmente aconteceu entre você e Clarice? Vai me dizer que fodeu com ela e não falou nem um obrigado.
Miguel estava achando que ela era que tinha fodido com a cabeça dele.
- Tá, é mais provável você ter oferecido uma foda por conveniência e ela ter falado umas poucas e boas para você.
- Você a conhece? – Miguel franziu o cenho.
- Não, mas conheço o ex dela. – ele deu um sorriso de deboche. – Todo o mundo conhece o ex dela... quer dizer, todo o mundo, exceto você. Ela namorava o ex-senador Aurélio.
- Não... – Miguel não podia acreditar que ela havia namorado aquele homem deplorável.
- É, meu caro, ela passou um ano com ele. Não vou mentir, o ex-senador estava louco quando resolveu trair Clarice. Ela não é do tipo de mulheres que ligamos para comer no fim da noite. Pelo o que eu sei, ela batalhou um bocado para chegar onde está.
- Preciso ficar só – disse Miguel, indo até o bar e pegando um copo de cristal, se servindo de uma dose forte de Martini.
Ethan sabia que não adiantava o que dissesse, ele teria que sair. Miguel era inflexível quanto a sua solidão, e aquilo devorava seu amigo. Ethan saiu da sala sem falar uma só palavra, dando uma olhada para um Miguel além de obscuro. Não sabia o que diabos Miguel estava sentindo naquele momento nem mesmo se sentia alguma coisa, mas ele estava diferente.
Quando Ethan se foi, Miguel só bastou dar um comando de voz para que a porta do escritório se selasse. Foi até sua mesa e abriu seu laptop prateado. Deu alguns comandos criptografados e lá estava tudo o que queria.
Para ele, conseguir dados alheios era tão fácil que nem ao menos demorava. Não por menos que ele trabalhou anos para o exército americano, e ainda hoje vendia tecnologia para o a equipe de inteligência americana e inglesa. Seu sucesso empresarial não era à toa. Miguel era muito bom em tudo o que fazia.
Depois de enviar todos os dados que pegara para seu telefone, ele acionou uma das câmeras de rua que tinha livre acesso – porque também fornecia softwares para a prefeitura, e ficou esperando o momento em que ela sairia. No GPS, Clarice Hope estava na casa de uma amiga, e pelo o que ele acessou, também era sua assistente.
Uma recente mudança de parâmetro anunciou que ela estava prestes a sair da casa, e Miguel estava certo a presumir isso.
Clarice saiu pela porta dando um abraço na amiga e indo para o carro que estava do outro lado da rua. Ela vestia uma roupa diferente da de mais cedo. Estava vestida de jeans e camiseta, com os cabelos loiros presos em um coque frouxo. Linda, ele pensou. E não era só isso que ele estava pensando. Havia tantos cenários dele e aquela mulher em sua cabeça que Miguel sinceramente achava que iria enlouquecer.
Miguel queria chamá-la para jantar, mas não faria isso. Queria ir até ela, olhar bem para aqueles olhos dourados e tentar descobrir o que diabos havia feito com seus sentidos. Até conseguia sentir o toque delicado dela limpando seu pescoço, tirando o sangue de sua pele e deixando ali um cheiro novo, doce e suave.
Clarice Hope havia deixado em Miguel um rastro de esperança.

CAPÍTULO 2
Sobrevive-se ao amor como outras coisas, e depois guarda-o na gaveta.

Clarice estava ofegante. Ela desacelerou o passo e pegou sua garrafa d’água. Dando um gole bem generoso. Puxou a chave de casa do bolsinho portátil de seu iPod e entrou, dando por fim mais uma corrida matinal.
Ela adorava correr de manhã cedo, era refrescante e revigorador. Nada parecido com aquele confinamento e cheiro de suor das academias. Até tinha alguns aparelhos em casa; uma esteira e pesos, mas não trocava o ar livre por nada no mundo.
Deixou a chave na bancada da cozinha e correu para a geladeira, pegando alguns ovos e leite. Seu computador – que ela já deixava por ali, apitou em uma chamada nova, era Rose. Batendo o ovo e o leite em uma tigela, apertou o aceitar e deu de cara com sua assistente.
- Bom dia, Rose. O que tem para mim?
- Nada demais. Só que sua secretária recebeu várias ligações da Walker House e o cheque chegou.
- Ótimo, coloque na minha mesa. Quanto às ligações, fale que não irei trabalhar hoje.
- Pode deixar. Ah... Tem algo mais.
- Não me diga que Aurélio me ligou novamente... – Clarice bufou, largando a tigela e alcançando a correspondência que ela havia pegado antes de entrar.
- Ele mesmo. Disse que precisa falar urgente com você... novamente.
- É, o mesmo de sempre. Se ele continuar a insistir, não atenda. Aquele projeto novo, já decidiram os detalhes finais? Precisamos entregá-lo até o fim do mês.
- Quase finalizado. Vou te mandar uma cópia para revisão.
- Chego ai em uma hora.
- Tá bom – Rose sorriu, desligando a chamada.
Tomando seu café da manhã rapidamente, tomou um banho demorado e se vestiu, dando uma boa olhada em seu rosto para ver se demonstraria algum tipo de vulnerabilidade. Não, seu rosto exibia o de sempre. Uma mulher firme e forte, e isso ela era, sem dúvidas.
Ela estacionou sua Mercedes no estacionamento privado de seu escritório e subiu andar por andar, algo que fazia sempre ao chegar. Ela era uma boa chefe, e isso todos concordavam. Trabalhar com ela era algo que muitos esmeravam e poucos conseguiam. Entrou na sua sala, jogando no lixo do canto da porta o buquê de flores vermelhas que seu ex lhe mandara, não estava com saco para o ex-senador hoje.
Foi até a mesa e começou a abrir a correspondência, deixando por último o cheque da Walker House. Sentou-se à mesa e deu uma boa olhada para o envelope branco. O abriu, quebrando o selo e tirou o cheque de lá devagar, arregalando os olhos para o que viu escrito. Aquele cheque havia sido feito pelo próprio Miguel Walker, e tinha um valor muito acima do que fora especificado no projeto. Ela estava esperando o valor do projeto apenas no papel, mas aquilo ali era do projeto pronto... e, multiplicado por dois.
- Rose! – ela chamou pelo interfone. – Me coloca em contato com o diretor financeiro da Walker House agora!
Mas o que diabos era aquilo? Depois de passar alguns minutos com o todo poderoso da empresa, e de ele cancelar o projeto repentinamente, sem dizer nada mais do que um “acabou para vocês”, agora ele mandava quase três milhões de dólares para ela?
Será que ele estava tentando ofendê-la ou comprá-la? Clarice queria entender, porque ela estava furiosa e confusa.
Não ia mentir que ele havia mexido com ela. Ah, sim, aquele homem misterioso e de poucas palavras a estava deixando de um jeito que só poderia ser abastado de uma forma. Mas pelo o que havia acontecido, Clarice tinha quase certeza que ele não queria o mesmo.
Por Deus que ela queria aquele homem, mas dos dois dias em que ela o conhecia, os dois foram o suficiente para que percebesse que ele era um babaca.
- Bom dia, senhorita Hope. – um rapaz do outro lado da linha atendeu. – O senhor Walker está em reunião no momento, mas tenho ordens de passar sua ligação a qualquer instante. Se puder esperar...
- Espere um momento! Eu quero falar com o diretor financeiro, não com Walker.
- Entendo sua confusão, mas o senhor Walker pessoalmente insistiu para que qualquer dúvida quanto ao cheque que enviou hoje fosse tirada com ele mesmo.
- Tudo bem – Clarice disse, tentando controlar sua raiva. Não estava entendendo nada daquilo ali. – Faça o seguinte. Diga a Walker que o cheque que enviou está sendo devolvido.
- Sim, senhorita. Irei informá-lo. Obrigada por nos contatar.
Aquele homem parecia um robô falando! Clarice tentou ficar calma, mas não estava dando certo. Primeiro o cancelamento do projeto enorme que haviam passado semanas criando, depois a insistência de Aurélio, o cheque e agora aquilo.
Por que ele havia dado ordens para que passassem a ligação dela imediatamente? Era um absurdo!
Ela enviou o cheque de volta e se enfiou no trabalho, tirando da cabeça ao menos temporariamente de Walker. No fim do dia estava exausta e recusou vários convites para ir tomar uma cerveja ou cair na balada.
Tudo o que ela queria agora era um bom banho de banheira, um episódio daquela séria antiga de drama e uma taça de vinho... não, duas.
A semana passou rápida, e ela até conseguiu tirar o episódio de Walker da cabeça e se livrar daquele calor que a assolava sempre que se lembrava do corpo musculoso dele sob aquelas peças do terno sobre medida.
Era só desejo, disse a si mesma durante um ou dois dias. Mas depois, colocou-o naquele canto de maravilhas do cérebro, que só era despertado em sonhos. E mesmo não pensando nele de manhã, quando dormia, era o rosto dele que ela via.
E mais. Muito mais.


- Walker, você anda muito distraído. Acho melhor encerrarmos por hoje. – seu treinador disse, fazendo cara feia para ele.
Miguel tirou as luvas e o protetor de boca, colocando na maleta.
- Eu sei o que vai falar. – ele se virou para o treinador, que estava abrindo a boca.
- Se for uma mulher, resolva logo.
- Não é – Miguel mentiu.
- Então é sua velhice que está lhe acometendo rápido demais. Essa semana você não rendeu nada. Estou começando a ficar preocupado.
- Estou legal. – Miguel mentiu novamente. Ele pegou uma toalha e passou no rosto suado, jogando dentro da maleta e a fechando, saindo com passos largos em direção à porta enorme do salão privado da academia.
Aquela tensão dentro dele estava se tornando uma bola de neve, e Miguel estava para explodir, não importava o que fizesse. E, olha que havia tentado de tudo.
Ele chegou a seu carro e jogou a maleta para o banco de trás. Não gostava de motoristas, não gostava de ter alguém conduzindo o que ele deveria ter em poder. Miguel não gostava deixar de conduzir nada.
Acelerou e saiu pela avenida movimentada, costurando o trânsito e não dando atenção para quem ficava para trás. Ele não foi para seu apartamento, um enorme complexo com vista privilegiada para o Rio Hudson. Não, ele foi para o outro lado da cidade, seguindo as coordenadas que estavam bem memorizadas em sua cabeça.
Miguel não precisou nem de dois segundos para guardar o endereço dela na mente.
Ele estacionou no fim da rua, desceu do carro e colocou o capuz do seu moletom. A rua estava clara, era manhã cedo. O sol despontava a leste com aquela luz pálida e fria. Miguel começou a trotar, ficando de cabeça baixa e mirando seu objetivo. Clarice estava saindo de casa, e ele tinha pretensão de fazer o que havia feito a semana inteira. Segui-la pelo percurso completo que fazia.
Era insano, Miguel tinha consciência. Mas era o que o acalmava, não sabia exatamente por quê. Esperou um instante, para dar espaço entre eles, e depois começou a correr atrás dela. Ela não o via, mas ele tinha uma visão privilegiada do corpinho curvilíneo.
Tudo estava calmo, a rua tinha algumas pessoas, mas não o suficiente. Porque foi de repente o que se seguiu. Um carro negro entrou na rua loucamente, cantando pneu e assustando as pessoas que corriam para a calçada para se proteger.
Miguel olhou para o carro e depois para Clarice. Ela estava em linha direta com o trajeto que o carro fazia, cambaleante na rua estreita de subúrbio. Ele esperou, ela tinha que sair daquela linha. Mas então recordou que ela, sempre após trancar a casa, colocava os fones de ouvido.
- Puta merda! – ele sussurrou, enchendo os pulmões de ar e correndo a todo vapor para onde ela estava. Não demorou, foi rápido. O carro estava quase para subir na calçada e pegar Clarice em cheio quando Miguel entrou na frente, atravessando a rua, puxando o corpo dela contra o seu, fazendo os dois caírem no quintal de uma casa enorme que tinha um pequeno anexo feito para crianças, com aquelas cercas pequenas, que se estilhaçam ao impacto do corpo massivo dos dois.
Ele estava com as mãos bem apertadas na cintura dela, e ela, avoada. Não sabia o que havia acabado de acontecer.
- O que... Meu Deus! – ela olhou para o lado, vendo o carro em disparada colidir com uma árvore e o som da colisão reverberar por toda a vizinhança.
- Você está bem? – ele questionou, apressado. Clarice olhou para ele e franziu o cenho.
Balançou a cabeça e fechou os olhos, tentando clarear a visão, tentando tirar a visão dele de sua mente. Não poderia ser Walker ali. Ela estava bem convencida que havia criado aquela imagem em base de seus sonhos tórridos.
- Estou... – balbuciou, tentando ficar em pé. Mas o impulso que deu foi trêmulo e acabou caindo de bunda no chão. – Walker, o que está fazendo...
- Eu tenho uma casa aqui. – Ele estava começando a perceber que tinha belos dons para mentira. E agora iria ter que comprar uma casa suburbana.
Respirou fundo e se levantou da grama, estendendo a mão para ela, que confusa, aceitou e se pôs de pé.
- Deveria tomar mais cuidado por onde anda. – disse ele, tentando não tirar sarro do acontecido. O rosto de Clarice estava pálido e ele resolveu que aquela não era uma boa hora para piadas. – Tem certeza de que está bem? – repetiu, dando um passo até ela.
- Sim. Estou bem.
Ela passou a mão no rosto e tirou uma mecha dourada da face. Miguel gostaria de ter feito aquilo para ela.
- Só estou um pouco assustada. Como você...?
- Não se preocupe com isso. Quer ir para casa e se sentar? Acho que precisa tomar um pouco de água.
- Também acho – respondeu Clarice, percebendo lentamente que estava com sua mão na dele. E tremia, muito.
- Sua casa é muito longe daqui?
- Não, é próxima. – disse ela, respondendo o que ele já sabia. Ela olhou ao redor e viu o estrago que haviam feito com a cerca da casa alheia. Ele percebeu o olhar dela.
- Eu resolvo isso depois. Vem comigo.
Clarice balançou a cabeça e apertou ainda mais a mão na dele, encontrando suporte naquele calorzinho que emanava e que era confortável.
Os dois caminharam em silêncio até a casa dela, notando as pessoas eufóricas por causa do acidente e correndo até lá. Um carro de polícia apareceu no fim da rua assim que ela abria a casa e adentrava. Miguel seguiu com ela, tentando não ficar incomodado com o aroma que começara a sentir.
Ela ficou apoiada nele enquanto caminhava até a cozinha. Ele puxou um banquinho alto e, não fazendo esforço algum, levantou-a pela cintura para sentá-la.
- Eu acho que você torceu o tornozelo.
- Não sinto dor – ela disse.
Miguel se agachou e passou os dedos pela panturrilha dela – enviando sinais de alerta para Clarice, quais preferiu recusar – chegando até o tornozelo, tocando-o ligeiramente com as pontas dos dedos, tentando encontrar algum ponto distorcido. Clarice não sentiu dor alguma, mas a imagem dele agachado à sua frente, tocando em sua pele era algo que ela não estava querendo guardar.
- Não machucou, está tudo bem. – Miguel se levantou, ficando ereto. Dessa vez ela notou o que ele estava usando. Ele vestia um moletom cinza daqueles folgados e que mesmo assim dava para transparecer o que tinha por baixo, vestia uma calça do mesmo tecido que não estava disfarçando nadinha do que era para disfarçar. – Água?
- Na geladeira. Eu pego – disse Clarice, dando um pulo da cadeira e indo para de trás do balcão de mármore negro. Ela puxou uma das portas da geladeira e pegou duas garrafas d’água.
- Obrigado. – Miguel agradeceu, pegando a garrafa da mão dela.
- Eu que tenho que agradecer...
- Foi um acidente, qualquer um faria o que fiz.
Miguel abriu sua garrafa e deu um gole longo. Clarice fez uma pausa e se escorou na bancada. Era estranho tê-lo ali na sua cozinha. Ficou olhando para o rosto dele enquanto ele bebia a água e viu um filete solitário de suor escorrer por sua têmpora.
- Não tenho tanta certeza sobre isso. Eu ainda não estou entendendo o que aconteceu, mas tenho certeza de que tive muita sorte de que você estava lá.
Ele abaixou a garrafa e encostou a tampinha no gargalo, lançando aquele olhar negro para ela. Ela balançou a cabeça, tentando concentrar suas ideias.
- Você mora aqui, em Hillside? Pensei que morava próximo ao Hudson. Digo, não é muito comum um empresário viver em um bairro pacato.
- Não moro aqui. Só gosto do silêncio. – Walker respondeu. – E é muito bonito pelo fim da tarde.
- Ah... – Clarice estava tentada a perguntar dele se o pôr do sol sobre o rio Hudson também não era uma visão bonita. – Eu nunca o vi por aqui...
Ele soltou um pigarro e repousou a garrafa pela metade na bancada.
- Eu tenho que ir.
- Mas, antes, poderia me responder algo? – ela franziu o cenho.
- É sobre o cheque? Eu enviei a quantia que achei que o projeto merecia. E o valor já foi transferido para sua conta, não aceitarei devolução novamente.
Clarice piscou duas vezes.
- Não pode fazer isso. Você nem viu o projeto para poder avaliá-lo.
- Eu tenho uma cópia do projeto comigo, Clarice. Não me faça parecer estúpido. Eu tenho o projeto comigo antes mesmo de vocês o terminarem.
- Então se gostou tanto, por que cancelou tudo? Não faz sentido algum.
Ele bufou e passou a mão nos cabelos negros. O olhar de Clarice sobrecaiu nas mechas brancas dele. Aquele detalhe incomum o deixava ainda mais atraente.
- Eu só não quero irritá-la com minha impaciência e a falta de cores. – repetiu o que ela disse no elevador.
- Eu não queria dizer aquilo...
- Queria sim – ele abriu um sorriso. – Esqueça isso, tudo bem?
- Então me convença do porquê cancelou o projeto.
Miguel não podia fazer aquilo.
- Está livre amanhã? – ele se viu dizendo, querendo mudar de assunto.
- Talvez...
- Venha jantar comigo. 
Ela parou e ficou o observando atentamente.
- Não acredito que seja apropriado.
- O quê, um jantar? Será apenas isso, Clarice. Pense como uma forma de agradecer por hoje.
- Mas você disse que eu não precisava agradecer.
- Bom, eu menti. – Clarice olhou bem para ele e sorriu. Se aquilo tudo era a forma dele de flertar, ele estava fazendo tudo muito errado, mas ela estava adorando.
- Tudo bem. Eu acho que posso jantar com você.
Miguel olhou para o rosto corado dela, os lábios rosados sinuaram um sorriso lindo. Por mais que sua consciência o alarmasse das consequências que o jantar com ela poderia ter, ele não estava realmente ligando. Ele queria, sentia que precisava ficar próximo. E o aroma, a beleza e a teimosia dela o tragavam como um fumante viciado traga a nicotina depois de muito tempo em abstinência.
Miguel queria tocá-la, e estava longe demais dela para isso.
- Walker? – ela o chamou.
- Miguel. Pode me chamar de Miguel.
- Seu corte... – Clarice apontou para o pescoço dele. – Melhorou?
- Sim – Miguel concordou com a cabeça, dando um passo mínimo para trás, para se distanciar um pouco. Aquela proximidade só o fazia querer se aproximar mais. – Que horas acha melhor?
- Oito está bom para você?
- Perfeito.
- Está muito apressado? Posso servir uma xícara de café, se quiser.
Ele ergueu o pulso e viu as horas. Não tinha que estar em lugar algum, realmente. Olhou-a novamente e viu que ela já estava do outro lado da bancada. Abriu a geladeira e pegou um pote com grãos.
- Não vai trabalhar hoje? – Miguel questionou, se sentando no banco alto que ela estava sentada há pouco.
- Hoje é sábado. Costumo trabalhar em casa no fim de semana. Essa é a coisa boa em ser chefe. E você?
- Também não. O sábado destino para salvar damas do perigo.
- Um piadista. Não achei que você era um. – ela sorriu, colocando os grãos no moedor.
- Eu sou muitas coisas. – falou Miguel, tentando não soar tão obscuro. Clarice ouviu, mas tentou não interpretar de uma maneira diferente; de uma maneira na qual ela não iria se assustar.
- Acha que as pessoas do carro desgovernado estão bem? – ela pôs a mão na bancada, esperando a máquina de café fazer o restante.
- Se sim, irão passar umas boas semanas presos. – Ele se asseguraria disso.
- Não consigo nem imaginar a cara da senhora Blair ao ver o estrago da cerca de sua filha. – Clarice foi até o armário e pegou duas xícaras. – Creme?
- Não. Sem açúcar também, por favor. Pode deixar que converso com os proprietários. Aliás, fui eu que danifiquei.
- É, mais por minha causa. Não deveria se incomodar.
- Não é incômodo. – ele respondeu, pegando da mão dela a xícara fumegante de café fresco.
- Eu insisto. Deixe isso comigo. Já fez muito.
O celular dela tocou, mas ela ignorou.
- Pode atender. Sem problemas.
- Se for quem penso, melhor deixar tocar. – Miguel nem precisava perguntar para saber que era o ex-senador.
- Você está bem? 
- Sobre o quê? A queda ou a ligação? – ela levou a caneca até a boca.
- O rompimento.
Clarice não deixou de soltar uma risada.
- Não é um rompimento. Eu o deixei. E isso tem uns bons meses, só que ele não consegue colocar na cabeça que eu mereço mais.
- Diga a ele. – sugeriu Miguel, sinceramente.
- Acredite em mim, eu já disse. Mas acho que isso é normal. Em algum momento da sua vida você vai ter alguém que não consegue largar do seu osso; não consegue aceitar que já deu.
- Quantos anos você tem? – saiu da boca dele, sem querer. Não é como se tivesse intimidade para perguntá-la esse tipo de coisa. Ela só havia sido educada para oferecê-lo um café. – Me desculpa... É que você parece bem mais velha do que aparenta.
- Oras, obrigada pelo elogio. – Clarice soltou uma risada. Miguel franziu o cenho.
- Não gostou? Fiz a minha melhor jogada.
- Estou começando a perceber. – ela abaixou a xícara e cruzou os braços, olhando bem para ele. – Sabe de uma coisa, assim que o vi nunca imaginaria que você é bem humorado. Até não parece o cara estranho que conheci no elevador.
- Posso ser estranho, se quiser.
- Não – Clarice abriu ainda mais o sorriso. – Eu gostei desse seu eu. É bonito.
Miguel não deixou de notar o olhar que ela lançava, e isso o fez ceder. O que não poderia. Os olhos dourados dela estavam lançando um tipo de fagulha que o ascendeu. Ele se sentia feliz ali, vendo-a de perto. Era uma emoção nova, estranha, assim como ele deveria ser.
- Preciso ir. – falou definitivo, desviando o olhar dela.
- Achei que teria. Eu o acompanho.
Clarice deu a volta na bancada, mas ele não a esperou e se pôs a caminho da porta. Não podia ficar mais nem um segundo ali dentro.
Chegaram à porta devagar e ele a abriu, dando um passo para o outro lado da soleira.
- Posso agradecer novamente? – Clarice abriu um sorriso torto. Ela estava flertando.
- Obrigada pelo café, Clarice. – a voz dele saiu mais firme do que pretendia. Ela tentou não ficar apreensiva com aquela indisposição de repente dele.
- Sempre que quiser. Afinal, somos vizinhos.
Dessa vez foi o celular dele que começou a tocar. Um zumbido suave saindo do bolso esquerdo da calça moletom.
- Nos vemos amanhã. – ela completou, dando um passo para trás.
Ele balançou a cabeça e se virou, se afastando para que atendesse ao telefone sem que ela pudesse ouvir. Conseguia sentir o olhar dela o acompanhando.
Tirou o aparelho do bolso e colocou ao ouvido.
- Ela está na Dinamarca, já estou preparando o jato. – disse Ethan.
O sangue dele ferveu. Chegou até o carro rapidamente, deu partida e saiu em disparada pela rua estreita.
Naquela noite, Miguel veria sangue.

**

- Ele fez o quê?! – Rose gritou.
- Eu sei. Minha cabeça começou a rodar quando me convidou para jantar.
- Clara! Ele é o Miguel Walker!
- É, eu acho que notei. – riu da amiga, que estava com a mão na cabeça e com a boca em um “o” perfeito.
- Ei, eu ouvi isso ai! – Lucas, marido de Rose, falou da cozinha.
- Docinho, eu te amo, mas tem que admitir que até você tem tara por aquele homem. Ele é o dono de todos esses vídeos games que joga escondido de mim.
- Eles são para o bebê, já disse. – Lucas levantou o dedo melado de massa de panqueca acima da cabeça, fazendo uma careta.
- Vai ser uma menina.
- Ah, não! – Clarice riu, levantando os braços sobre o corpo. – De novo não. Não aguento mais essa discussão.
- Calma ai que ainda não terminei com você, mocinha. – Rose se virou para ela, séria. – E disse o quê? Recusou, não é?
 - Como eu recusaria uma proposta de jantar com aquele homem, Roseline? Você já o viu. Ele é lindo, inteligente e irresistível.
- Não foi ele que a largou sozinha no meio do escritório supremo da empresa?
- Não foi nada. Além do mais, faz um bom tempo que não saio com ninguém.
- Isso porque recusa todos os convites que aceita. Mas quando um bilionário gostoso a salva de um carro desgovernado parece até que você acendeu duas setinhas brilhantes em cima da testa. – Rose falou baixinho, chegando próxima a ela, para que Lucas não escutasse.
Clarice soltou uma risada.
- Acho melhor não continuar dizendo essas coisas sobre Walker, cedo ou tarde Lucas vai aparecer com aquela espátula torta e não vai ser bonito.
- As panquecas estão prontas! – Lucas apareceu, passando a mão no avental que estava usando na cintura e dando um sorrisão para as duas. – Hora de alimentar meu garotão! – ele sentou no chão e levou a mão livre para a barriga de Rose. Clarice deu um suspiro, aqueles dois eram uns amores.
Ela se levantou e foi até a geladeira, buscando uma garrafa de cristal e uma jarra de suco. Serviu três pratos de panqueca, sendo bem generosa na calda quente de chocolate, e jogando amêndoas picadas por cima. Deu uma olhadinha para os dois, na sala. A lua estava alta, a luz trespassava as cortinas da casa e descia sobre eles. Lucas passou a mão no cabelo espetado e depois deu um beijinho na cabeleira ruiva, que mais parecia laranja, de Rose.
Sua outra mão continuava na barriga dela, acariciando. Clarice nem percebeu que estava dando um sorrisinho.
- Vai visitar seu pai amanhã? – Rose olhou por cima do ombro, vendo-a vir em direção a eles com a bandeja pesada.
- Vou – ela repousou a bandeja na mesinha de centro, pegou uma taça e se serviu com cristal. Só dois dedos, ela era fraca para álcool. – Matt disse que meu pai está sentindo minha falta.
- Mas também, aquele projeto gigantesco da Walker House deixou a equipe inteira cansada e atarefada. Me diz, como ele está?
- Como sempre – Clarice lamentou. – Ele tem alguns dias bons, outros não tão bons assim...
- Poderia trazê-lo para um almoço qualquer dia desses, acho que poderia ser bom para ele. – disse Lucas.
- Também acho. Vou ver o que ele pensa sobre e falo para vocês.
- Ainda não consegui entender porque Walker cancelou o projeto. – Rose se meteu. 
- Walker não te disse nada, Clarice? – Lucas perguntou, ajudando Rose a sentar no carpete e chegar mais perto da mesinha. A barriga dela não estava muito grande, mas Rose já começara a sentir várias dores comuns de gravidez.
- Ele mudou de assunto. – Clarice cortou um pedaço da panqueca, levando-o a boca. - Decidi não insistir.
- Clara, meu bem, você nunca insiste. É muito pacífica, tem que começar a gritar com as pessoas. Não comigo, claro. Sou uma ótima funcionária.
- Muito humilde minha mulher! – Lucas deu uma garfada na sua panqueca e passou um copo de suco para Rose, que fez careta.
O telefone de Clarice zumbiu. Ela tirou do bolso e olhou para tela. Era um número que não tinha na agenda, colocou ao seu lado e deixou que tocasse.
- Ainda fugindo do Aurélio? Aquele homem é um pé no saco.
- Se bem que não, ele parou de ligar enlouquecidamente, o que é bom. – O celular parou de tocar e deu sinal de uma mensagem.
- Ele está mandando mensagem agora? – Rose caiu na risada. – Não sabia que ele conhecia essa função.
Clarice pegou o telefone e abriu a mensagem.

Desconhecido – 21h22: Massa ou peixe? W.
C. Hope – 21h22: Massa. Como diabos conseguiu meu número de telefone?
Ela digitou, franzindo o cenho. Não se lembrava de Walker ter pedido seu número.
M. Walker – 21h24: Eu o pedi, você me deu. Fiz reserva para o Le’ Petit. Te pego as 7.
C. Hope – 21h25: Não e não, nos encontramos lá.
M. Walker – 21h26: Isso foi uma rejeição dupla ou um espasmo nos dedos? Meu carro é bem confortável, acho que vai gostar.
C. Hope – 21h28: Você disse que seria só um jantar.
M. Walker – 21h28: É, eu disse. Mas você acreditou?
C. Hope – 21h29: Vou dizer que sim.
M. Walker – 21h30: Então não. Tem certeza sobre a carona? Se mudar de ideia é só dizer.
C. Hope – 21h30: Se eu aceitar vai contar como conseguiu meu número?
M. Walker – 21h32: Não vai gostar de saber.
C. Hope – 21h32: Walker, pare de hackear meu sistema interno.
M. Walker – 21h33: Eu não fiz nada disso. Pesquisei seu nome no Google e apareceu.
C. Hope – 21h33: Como se no Google tivesse meu telefone pessoal...
M. Walker– 21h34: Você não sabe o que pode encontrar por lá. Posso lhe mostrar uma variedade de coisas que nunca imaginaria.
C. Hope – 21h35: Acho que vou ter que começar a imaginar agora.
M. Walker – 21h36: A imaginação nunca chega perto da experiência. Me permita...
C. Hope – 21h37: Permitir-lhe explorar minha imaginação ou experiências?
M. Walker – 21h38: Clarice, eu quero explorar tudo de você.
E com o coração trotando no peito, ela quase não soube o que responder. Seus dedos ainda estavam tremendo quando clicou em enviar na mensagem.
C. Hope – 21h42: Nos vemos amanhã, Walker.
M. Walker – 21h42: Miguel.

Ela colocou o telefone no bolso da calça jeans e abriu um sorrisinho canto de boca, aquele homem era diferente de qualquer um com quem já havia saído. Ela sabia que não haveria mais nada do que uma noite entre eles, mas mesmo assim Miguel conseguia envolvê-la tão facilmente que ela se derretia. Mas como não? Educado, lindo, inteligente e rico. Não que dinheiro fosse um adjetivo para ela, Clarice era rica. Quer dizer, não tanto quanto Miguel, claro. O cara era dono de quase tudo que se via de tecnologia, e pelo o que ela sabia, ele investia em entretenimento noturno. Ele era um magnata, mas não parecia. E isso era fascinante.
- Tem alguém que está vermelha. – Rose cutucou o Lucas. Clarice pigarreou e passou a mão nos cabelos loiros. – Era ele, não era? O bilionário bonitão?
- Walker estava só confirmando. – ela disse para Rose. 
- Tomara que ele não seja como o ex-senador. – apontou Lucas.
- Não acredito que Walker esteja querendo que eu seja sua acompanhante de eventos de gala. E eu também não estou querendo isso. Vai ser só um jantar.
- E quem sabe algo mais... – completou Rose, lendo os pensamentos da amiga. – Nada melhor do que um jantar seguido de uma desculpa para parar no hotel mais próximo. Perdi as contas das vezes em que eu e Lucas fizemos isso.
- Ah! Por favor! – Clarice levantou a cabeça, fazendo careta. – Não preciso ter isso em mente.
- O quê? Acha que a isso aqui foi feito por conjuração ou propagação de boas ideias? – ela apontou para a barriga.
- Sabe que como madrinha vou contar todas essas histórias para ele ou ela, não sabe?
- É ela. – Rose retrucou, jogando o guardanapo nela pelo o outro lado da mesa.
- Docinho, vai ser um menino. Eu sinto. – Lucas falou para Rose.
- Quem deveria sentir sou eu. Eu que estou grávida!
- Só acho que vocês deveriam acabar com esse suspense logo. – Clarice levantou, pegando os pratos da mesinha. – Alguém quer mais panqueca?
Os dois balançaram a cabeça.
- E a emoção da descoberta? Não, não. Queremos que seja surpresa.
- Vocês estão acabando comigo! Como vou desenhar o quarto da criança se não souber o sexo? – ela colocou os pratos dentro da lava-louça, voltando devagar para onde eles estavam e dando um pequeno gole na sua taça de cristal. Ela mal havia bebido.
- Como se já não tivesse desenhado vários outros quartos maravilhosos sem nem mesmo saber para quem.
- Esse será especial, sabe disso.
Rose abriu um sorriso.
- Nós sabemos. Mas vai ter que esperar com a gente.
- Isso é tão frustrante!
Lucas soltou uma risada. E Rose explicitou o que ele estava pensando:
- Acredite, nós sabemos!

**

Clarice não sabia muito bem se estava pronta, havia passado uma hora tentando acabar com o nervosismo de se reencontrar com Miguel. Não que ela estivesse temerosa pelo o que aconteceria após, pois ambos estavam esperando por uma noite juntos, mas pelo contrário. Ela mal podia se segurar, estava louca para que finalmente pudesse chegar ao restaurante, pular para a sobremesa e ir direto para um quarto de hotel para degustá-la no corpo maravilhoso dele.
Já era o terceiro vestido que ela provava e dessa vez decidiu que era aquele e pronto. Mas não estava tão certa assim.
Ela olhou para o espelho novamente, não se resolvendo por seu cabelo solto ou preso. O vestido era lindo, ia até a metade da panturrilha em um tecido fino e suave, que agarrava suas curvas com paixão, incorporando um decote reto pelo busto que fazia o colo ficar nu. Era azul claro e fazia a pele dela ficar ainda mais branca. Seu rosto esboçava uma maquiagem tão simples e cativante que era possível se ver o brilho do olhar dourado dela de longe.
Decidiu pelo cabelo preso. Não fez nada elaborado, não queria soar preparada demais só para um jantar... Mas, se bem que, ele valia elaboração. Clarice deu um sorriso ao pensar nisso.
Calçou seus Choo negros e tentou não ficar ainda mais indecisa do que estava. Sabia que estava linda, Clarice não tinha problemas com sua autoestima. Ela sabia muito bem o efeito que suas curvas generosas, seus seios bem redondos, seu quadril voluptuoso, seus olhos inquisitivos e sua pele como leite causava nos homens.
Agarrou a bolsa na bancada da cozinha e as chaves do carro.
Sua Mercedes não demorou a chegar até o restaurante, apesar de ser do outro lado da cidade. A fachada do restaurante era clássica de locais três estrelas, com uma luz elegante iluminando o letreiro Le’Petit.
O manobrista veio educado até ela, abrindo a porta e assumindo o volante do carro para estacionar. Clarice olhou ao redor e notou algo estranho, não havia ninguém entrando do local. E mesmo que fosse cedo, ela realmente não achava que este era o motivo de tão pouco movimento. Só bastou que ela colocasse o pé no tapete vermelho da entrada do local que o maître chegou para acompanhá-la, respondendo a pergunta mental dela com um simples gesto.
Entrando no salão, ela bufou. Miguel não havia feito reserva, ele havia alugado o restaurante inteiro. E, sinceramente, aquilo não a fazia feliz. Clarice queria algo simples, fora daquela alçada de inalcançável e inexplicavelmente rico. Ela já havia passado o mesmo com o ex-senador e não estava pronta para um excesso de demonstração de poder e dinheiro.
- Por aqui senhorita. – O maître a mostrou o caminho, levando-a para a única mesa com flores ao centro.  
- Obrigada – agradeceu a ele, que saiu concordando levemente com a cabeça.
Clarice se sentou a mesa, levemente confusa. Miguel deveria estar ali, não?
Ela olhou de um lado para o outro, notando garçons e o próprio maître evitando olhar para ela, todos em postura como se estivessem prestes a servi-la. Mas não estavam.
Ela voltou seu olhar para cima da mesa, e de repente a chama do elegante candelabro começou a perturbá-la. Tirou o celular da bolsa e conferiu a hora, se espantou ao perceber que já havia passado meia hora esperando e ele não chegara.
E nem ao menos havia mandado uma mensagem. Ela quis ligar para aquele número que tinha guardado na memória do aparelho, mas achou melhor não. Clarice não era assim. 
Olhou em volta novamente, começando a ficar envergonhada pela situação. Um aperto subiu pela garganta, e começou a queimar.
Ela estava começando a perceber que Miguel não viria.
Mas por que diabos havia feito aquilo?
Respirando fundo, e recolhendo o restinho de seu orgulho, ela pegou sua bolsa e levantou da mesa, obstinada a sair dali o mais rápido possível. Mas algo a interrompeu.
Um homem negro, de tez limpa e bonita, olhos castanhos da cor de mel sorriu para ela. Ele tinha um longo chapéu branco na cabeça, ele era o chef.
- Você foi a mais rápida a perceber que Walker não viria. – disse com voz rouca.
- A mais rápida? – ela perguntou, esboçando um sorriso que apareceu pela necessidade de esconder a vergonha e a humilhação que sentia.
- Ele não vem.
- Surpreendentemente, não estou surpresa. – Clarice respondeu, dando um passo para trás, dando a volta na mesa.
- Leonardo Conquesto, chef da casa. – ele fez uma mesura elegante, abrindo ainda mais seu sorriso branco.
- Eu notei. E foi um prazer, mas acho melhor ir. – apontou para a porta, sem jeito.
- Tenho que confessar que quando entrou aqui quase nem acreditei que Walker iria fazer esse joguinho repugnante com você. É simplesmente a mulher mais linda que já vi. Que tal... – Leonardo levantou o dedo sobre o rosto. – Uma visita à cozinha com o chefe?
Clarice passou a mão nos cabelos loiros e expirou baixo.
- Eu realmente agradeço, mas tenho que ir.
Leonardo sacou um cartão do bolso e estendeu a ela. Fez uma expressão séria e disse:
- Eu entendo. E da próxima vez que um bacaca te der o bolo, me ligue.
Clarice pegou o cartão meio hesitante.
- Vou te acompanhar, venha comigo. – ele fez um movimento com o braço e um rapaz saiu do restaurante. Quando chegaram na saída a Mercedes dela já estava à espera.
- Obrigada, Leonardo. – ela disse, dando um sorriso de gratidão.
- Prego, preciosa. – ele respondeu, abrindo ainda mais aquele sorriso branco, enviando sinais calorosos pelo olhar.
Ela pegou a chave da mão do rapaz que havia trazido o carro e olhou para ele.
- Você poderia mandar um recado para Walker por mim.
- Como o quê? – ela riu. – Mandar ele se ferrar?
- Algo assim. – respondeu Leonardo, animado com a perspectiva dela fazer aquilo.
- Não hoje. – sentenciou Clarice, louca para chegar em casa. Balançou o cartão dele na mão. – Eu lembrarei sua gentileza, Leonardo.
E entrou no carro, dando partida e lançando um olhar para ele antes de sair pela avenida vazia, voltando para casa com a cabeça cheia e a garganta apertada. Havia acabado de ganhar um bolo de Walker, e não de um jeito qualquer, mas de um modo na qual a havia envergonhado-a até as raízes do cabelo.
Leonardo insinuara sobre outras e só de pensar nisso ela se sentia ainda mais suja por toda aquela situação. Mas que homem era aquele? Que aparecia do nada em sua vida, em momentos inoportunos, para simplesmente sumir e não dizer uma só palavra.
Ao chegar em casa, Clarice respirou fundo à frente do espelho, xingando baixinho o nome dele por ele ter feito aquilo com ela. Não poderia ao menos ter mandado uma mensagem de cortesia?
Tirou a maquiagem do rosto e ligou a água da banheira, ajustando o termômetro para o mais quente possível. Ela pretendia passar um bom tempo ali dentro, colocando em ordem seus pensamentos e apagar de uma vez a imagem de Miguel Walker da cabeça.
Livrou-se das roupas e mergulhou na água quente com bolhas cheiro de amora.
A água foi esfriando devagar, mas ela não percebeu, havia pegado no sono levemente e quando acordou não se lembrava se havia sonhado, e achou melhor assim.
Levantou-se da banheira triangular e pegou uma toalha, enrolando-a sobre o corpo enquanto ia para o quarto. As janelas francesas que davam para o jardim estavam abertas, e um vento frio lufou para dentro, balanceando as cortinas brancas. Clarice foi devagar até as portas, fechando-as devagar, notando que a lua estava cheia e bem alta no céu. Abriu as cortinas e deixou-as assim, jogando a toalha do chão e deitando-se nua aos lençóis brancos, a luz da lua envolvendo cada uma de suas curvas, seu cabelo loiro brilhando.
Não muito longe dali, Miguel assistiu-a ficar nua a frente das janelas de vidro, se deitando só, ao invés de ter sua companhia, como deveria ter sido aquela noite.
O coração dele só conseguia bater ainda mais rápido, tanto pela visão gloriosa dela quanto pelo o que gostaria de fazer. Mas não podia.
Miguel tinha que se manter longe de Clarice o máximo possível, e o que havia feito a respeito do encontro que havia proposto impensavelmente resolveria aquilo. Clarice não iria querer ver a cara dele por muito, e ele não esperava menos, pois o que estava sentindo tomar posse de si a respeito daquela mulher não era o que ele procurava no momento... nem nunca.
Ele não sabia se a havia magoado, mas esperava que não. Assustou-se a conceber esse pensamento, e ao tê-lo em sua mente soube que o instinto animal que o perseguia por onde fosse estava sendo apoderado pelo instinto de proteção que o guiou até ela, que o fez ter os olhos nela em cada minuto de seu dia, sem a consciência de consequências, as que no caso dele eram tão obscuras quanto o que ele continha dentro de seu coração.
Os olhos dele correram novamente pela imagem, agora distante, dela adormecida. Os cabelos sob o rosto, a pele nua delineada pelo luar. Ah sim, ele queria entrar naquele quarto e abdicá-la como sua, somente sua. Foder Clarice até ela aclamar seu nome e depois voltar a dormir, só para que a tivesse nos braços, para depois fodê-la novamente, exclamado o quanto precisava daquilo. Porque necessitava, ele ansiava.
Clarice despertou incompreensões dentro dele que fez com que seus sentidos se aforassem, ficassem turbulentos.
Mas ao olhá-la, tudo se acalmava e o pedia para se aproximar, para fazê-la sorrir, tocá-la...
Ele abaixou a tela fina do computador prateado com um baque, a imagem sumindo bruscamente de seu olhar. Olhou para a fotografia ao lado da mesa.
Sua filha sorria para ele com a felicidade contagiante de uma criança, os olhinhos em frestas e o sorriso branco quase chegando à orelha, um dente de leite havia caído uma semana antes daquela foto e ela estava com o sorriso banguela mais lindo que ele já havia visto na vida.
Os cabelos negros esvoaçavam ao redor dos ombros dela, uma fitinha vermelha grudada aos fios, embelezando o que um dia iria ser uma linda mulher. Mas sua pequena Lily nunca teria a chance, ela estava morta e ele iria tirar o prazer de respirar dos homens que fizeram isso a ela, e assim iria pagar a divida da única pessoa que um dia amou.
Pequena Lily.
Era por ela que ele se negava sentir o que florescia dentro do peito por Clarice, não só um desejo incompatível com sua sede de vingança, mas uma força que tentava iluminar a escuridão que a dor da morte de sua filha deixou, e que tomava conta de tudo, apoderando-se devagar, mas profundamente, tomando tudo de uma só vez.
Miguel passou os dedos sobre a fotografia, dando-se um tempo antes de levantar da cadeira, andando pelo seu escritório e indo até quarto, jogando sobre a cama várias malas que teria que organizar por ali. Dentro delas havia algumas armas e vários aparelhos tecnológicos.
Sua corrida até exterminar os bastardos que mataram Lily ainda não terminara.

E agora ele morava na rua de Clarice. 


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